terça-feira, 11 de setembro de 2018

CÉREBROCORAÇÃO

Cheguei na bancada do pronto-socorro com o coração na mão. A atendente me olhou assustada. “Você acha que alguém aqui consegue me ajudar?”, perguntei. Ela gaguejou qualquer coisa que não consegui entender e chamou por um nome, que atravessou a porta sem maçanetas e, surpreendentemente, se surpreendeu. Sempre achei que médicos obtinham a ingaia ciência, que Carlos Drummond falou, enquanto cursavam a faculdade. Aquela: a que interrompe a surpresa da janela.
Me levaram de cadeira de rodas até um quarto branco, todo branco, com cadeira, janela, maca e paredes brancas, além de coisas metalizadas e esterilizadas. Perguntei se podiam me dar um anestésico qualquer, para que pudessem resolver o que eles fariam com tudo aquilo em paz. Disseram que não, que antes queriam uma explicação de como aquilo tinha acontecido. E que tudo começasse do começo.
Bom, o começo foi um sufoco na garganta, o que levou meu médico a acreditar que era  refluxo ou algum problema na tireoide. Depois foi falta de ar, que ele atribuíu à poluição daqueles meses sem chuva. Então, uma dor no fim do estômago, gastrite; prisão de ventre, muita fibra; dores musculares, falta de exercício; insônia, estresse; dor nos rins – nem sei onde ficam os rins, mas eles doíam -, muito sódio; cegueira instantânea, diabetes. “Mas não tenho diabetes, por isso a cegueira passou”, dei de ombros, olhando para os médicos que acumulavam na sala, tentando ouvir meu relato.
“Depois veio uma dor imensa, tão imensa que eu não sabia onde era”, continuei. “E era profunda, tão profunda que nenhum raio-x conseguiu acha-la. Passei vinte e três horas aqui, nesse hospital. Me mandaram embora depois de desistirem de procurar. Também me mandaram fazer terapia, que talvez fosse psicossomático. Hoje foi a primeira sessão”. Um médico começou a medir minha pressão, enquanto o outro tirava de minhas mão e posicionava, em uma bandeja de metal fria,  o meu coração, que saia pela boca.
– Há quanto tempo está assim? – perguntou alguém sem crachá e, portanto, sem nome, mas que me olhava nos olhos. Era difícil se concentrar em qualquer coisa sem ser o liquido viscoso que saia do órgão pulsante, escorrendo pela bancada e pingando no chão.
– Há mais ou menos uma hora. – respondi. – Antônio, meu terapeuta, me disse pra colocar tudo pra fora. Isso era tudo o que tinha. A cabeça era dura demais para abrir.
Todos da sala me olharam, com pena.
            – Mas nada mais dói. – continuei. – Até a sensação inicial na garganta, com as artérias passando por aqui (apontei para a traqueia), não incomoda mais. Não queria causar nenhuma dor de cabeça a vocês, só vim porque achei que não podia ficar desse jeito.
            A pessoa do olhar balançou negativamente a cabeça, enquanto outros balançavam afirmativamente. Olhei finalmente para o meu coração.
            – Não acho que temos materiais, técnicas ou conhecimento o suficiente para colocar tudo isso no lugar. – disse um dos médicos mais velho presente na sala, pausadamente, sendo perceptível o cuidado que tomava em escolher cada palavra. Suspirei. – O que acha sobre isso?
            – Achei que seria de um vermelho mais vivo.

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