quarta-feira, 6 de novembro de 2019

INOCENTE COLAPSO

A mesma boca que fuma e bebe,
ele beija o sorriso.
Diz que não existe bem e mau
pois nunca viveu o feminino.
Eu preparei a cama para descansar
e ele recusou injustamente esse amor
que é objeto - vulgar, voraz e indireto.

Pessoas com barreiras
constroem pontes pro inalcançável
suporte pro insuportável.
Ele, barroso, tijolo,
construiu um muro diante de mim,
me prendendo dentro
e não me deixando entrar.
Eu me senti jovem ao seu lado
certa demais que cuidaria de mim.

repetição de movimentos estagnados:
                 Será
     enjoar            que
até                             um
doer                      dia
         de         vou 
             parar
                ?
                                              exaustão

- Sabe, eu tive a sorte de encontrar amores bons por ai.

Amores que nunca me deixaram...
E talvez, realmente, seja injusto demais
eu pôr o que me deste à prova
e pedir que não fiques contrariado.
(por que tenho que sentir o gosto amargo de ferro da culpa
se ele apenas bebe água com açúcar?)

No fim,
amor e sofrimento
só se expressam depois
de um longo

silêncio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

CÊ HAVERIA IMAGINADO LÚCIDA EBULIÇÃO?

A fumaça negra subiu
como sobe à  face o sangue envergonhado.
A tela é incandescente; o fogo, eletrônico.
As janelas se fecharam
como encerram-se os olhos num momento de medo.
O sangue escorreu como lágrima
na testa que franzia como persiana.
A veia latina, aberta, derrama
balas que estouram em pequenas contrações
junto do gás de lamúrias brancas,
nuvens ardidas de cegueira.
"És um niño, no consigues ver?!"
     A revolução machuca; nos mata.
     Choro no banheiro, tocaia no meio da sala.
     Não, a revolução liberta:
     são os homens armados que matam.
A voz que estilhaçou, validada,
lembrando que aqui sempre existiu povo
que não tem direito a nada:
vidas sobre a espinha dorsal;
lanças que acuam o general.
Alguém acuda a capital!
Tranquem! Batam! Sumam!
Tenham medo, consumam!
Olhem pela fresta do vendaval,
esperem pelo próximo carnaval.
(a multidão ultrapassa a beira)
Fechem as porteiras, as fronteiras!
Esse desejo está prestes a sair!

terça-feira, 3 de setembro de 2019

COBERTA

É madrugada
e estou, assustada com seu peso,
muda, diante de uma reencarnação.
"Tenho que pensar mais concretamente",
e minha cabeça virou um tijolo.
     it's gonna be a long night, you know
     it's gonna be a long life
Eu acho o amor uma coisa esquisita.
É bom que ninguém entenda,
porque senão ninguém amaria.

Eu vou te contar uma coisa sobre barcos:
eles afundam mesmo com mulheres e crianças dentro.
E tudo o que fica
é o medo de ficar.

Foi um balde de água fervente sobre a cabeça;
sobrou-me só os ossos
não há mais nenhum nervo.
Essa arte que a vida faz das sensações insuportáveis...
O corpo sabe o seu limite (e dói até lá).
Aprendi a não morrer mesmo sem sangue.
E não me impressionaria
se suas mão cortantes me dilacerassem de novo
- o que me assusta, na verdade,
é acordar e você ainda estar aqui.
     you broke my heart and now
     i'm trying to fix it for you
     that's not fair

Você age como se estivesse sozinho no mundo,
eu já sei, não precisa repetir.
"Lembrar é tão bom; é o que derruba a gente",
ele disse, nostalgica possibilidade,
mas não é genuíno, em mim
não há mais ingenuidade.
     isso mudaria alguma coisa?
     se eu rasgasse o peito
     e mostrasse o buraco negro:
     mudaria alguma coisa?
Me perguntava, bamba de carinho,
se confundiria minha pele
ou se conseguia ler o braile dos meus poros;
se andaria pelo lado de lá na calçada.
"Mas fica,
algum dia eu volto a escrever poemas lindos
sobre você."

- Pois bem, já pode cobrir a noite.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

MIRE-ME, MAS NÃO ATIRE

Os joelhos se encontraram
na mesma insistência que têm as marés.
Tu dizias que de roupas não se sentia
tão livre e eu pensava
o que sentias por mim,
querendo que não fosse amor
porque eu não queria perdê-lo
(você, não o joelho).
Eles se encontraram por debaixo da mesa
e eu quis saber o que havia por debaixo das roupas.


Eu tive muita certeza.
De quê, não sei

mas era um sentimento de certeza.

Falei a frase de Che (uma gravura)
“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura”
e agora, de corpo arrepiado,
sabes que não é verdade:
temos que amolecerse, pero sin perder la fuerza
de sentir la delicadeza
do corpo que não é um corpo de sexo,
mas um corpo de vida
uma confusão criativa.

Talvez as sutilezas possam nos guiar
muito mais do que as certezas.

As bocas não se encontravam
pois no momento em que se decide o beijo,
o caminho até ele se torna imenso.
A gente não sabia o que queria
mas não era nada do que se conhecia,
algo que não dava pra imaginar, apenas criar
e sem arestas, as coisas engrandeceram
coube tudo.

Eu te escolhi para ser meu primeiro
amor; entendes a grandeza disso?

SÉCULO SEM SONHO

Espero o meio de maio pelo começo do ano
assim como espero os vinte pela minha vida.
Existem tantos ônibus, tantas vias;
como posso viver sem saber
todos os caminhos que percorrem minha cidade?
Tantos jornais, tantos sábados,
tanto desemprego;
como não conhecer a face do desespero?

Estou cansada de saber como as coisas são.
Será isso
o máximo que foi concedido
ao ser humano?
- Isso não vale a pena, eu dizia,
pensando qual era a pena
a ser sofrida
se fomos condenados à liberdade
em vida.

O Melhor Momento da História:
não adianta voltar em nostalgia,
nunca estará tão próxima a utopia
   (a imagem se distorce
   quando muito próxima do espelho
   - preciso encará-la
   com o pessimismo necessário).
Encaro-me, presa na boca do leão,
e tudo o que produzo é fruto dessa solidão
da escuridão antes de dormir -
me lembro de morrer
e chegar na conclusão
de que não é possível
que seja só isso

                         "não haverá mais acontecimentos;
                           seremos plenamente felizes"

cheiro revolução ao alcance das mãos
e não vou
                 somente vamos
porque há algo que não isso
                         que quero e não sou eu
                               (você)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ONDE VIVEM OS MONSTROS

Atrás de pedras que teimo em tropeçar,
em florestas cheias da mesma árvore,
na respiração abafada do esconderijo
na chave que cai da fechadura.
Assim compus meu mau(soléu),
fechando, atrás de portas-casca-de-ferida,
um corpo sozinho que sente
e decide:
dessas faltas já adultas
nascerão mágoas que começam guerras;
avalanches.

Desacomodada violência,
temo perder meu lugar nesses braços,

meu lugar no mundo.
                      - Eu vou te engolir, eu te amo tanto.
                     Abraços de garras
                     Amar, vigiar e punir
Eu sei, choro em uma frequência escandalosa...
mas quem não chora pesadelos
                                  vira monstro
- psiu... tá acordada?
hoje descobri como eles transam:
lubrificados em lágrimas,
sem nenhuma palavra
e cheios de mágoas.

domingo, 16 de junho de 2019

SÓ TEM MEDO DA DOR QUEM AINDA DÓI

Vim te avisar que a amoreira deu frutos hoje,
mas já comi todos, não adianta se apressar:
terás que esperar mais um ano
pra poder borrar de novo a boca e os dedos.
Lembra-se do seu plano de não zarparmos?
De não falarmos, de não definirmos?
Eu estraguei tudo quando bebi o mar inteiro;
quando desnudei o mundo num dicionário;
quando no não dito coube a evolução de uma espécie.
E até agora, meu amor, a vida me parece uma longa espera.

É esquisito como quanto menos a gente tem
mais a gente quer - quanto menos frutas conhecemos
mais comemos os mesmo erros.
Aos treze, eu disse: "Não quero amar um desespero"
e confesso que nos minutos estridentes
ainda quero gritar: "Leva!
Estou cansada de estar solta!
Cansada de crescer sem raízes!"
A falta nunca foi do que vai embora,
mas do que nunca chegou.

Não se constrói uma vida inteira sozinha.

Mas o amor, eu descobri, ele é silencioso,
é rasteiro;
acostumado com sussurros,
não entende nada que é grito.
Noite silenciosa, assim lhe ouvi
- falava da parte de trás da Lua:
disse que somos seres de sobra,
o contrário do que sempre se pensou,
porque não somos pra pensar, mas afetar
- não pra viver em apartamentos apertados,
lucrar horas e se depositar em bancos
(se não vê ninguém ao teu lado
talvez seja o caso
de olhar melhor).

Teu amor da minha vida
foi depois daquela curva abrupta
- pra eu cair fora de mim -
e lá estava:
sem medo, criavas esquinas com as próprias mãos.
Comemos unhas de laranjas,
trepamos as amoras,
escalamos jabuticabas,
cuspimos as pitangas
e meu bem, não sei se foram os galhos quebrados
mas me sinto ramificada.
Sobramos -
como sobram ondas no mar.
E depois do último dia em que eu te perder
o pôr-do-sol ainda terá tua cor
(o laranja ensurdecedor)
mas todas as outras horas serão camaleões
e os fins, casulos quebrados;
                                             borboletas.