quinta-feira, 14 de junho de 2018

INSUSTENTÁVEL

“Os olhos, como se diz,
são a janela da alma”

   Jantávamos olhares, e o seu me barrava na íris. Enquanto falávamos sobre tudo, você bebia todo o meu mar e eu morria afogada na praia. Havia alguma sutileza, algo que havia se tornado duro nos seus olhos. Antes, o preto de sua pupila parecia a imensidão desconhecida dentro de ti; naquele momento, parecia um muro que me deixava do lado de fora. Latidos de cães que protegem um terreno baldio, que afastam quem não é bem vindo. Eu te olhava, olhava, não entrava. E você não piscou, nem uma vez.
   Não aguentei e desviei pra algum lugar, não sei, meu copo. Meio cheia meio vazia, minha cabeça já estava em outro lugar longe de suas palavras, e minhas pernas balançavam como se quisessem ir rapidamente pra lá. Quando te vi de soslaio, você ainda me olhava do mesmo jeito, e eu comecei a assisti-lo, como um filme. Como faço em um filme, parei de prestar atenção alguns minutos depois.
   Me lembrei de um moço, com quem estudei no colégio. Quando conversamos pela primeira vez, ele me confessou que me observava de longe há bastante tempo, mas que nunca teve coragem de vir falar comigo porque eu tinha olhos duros. Eu sabia que o pior que poderia sair dos meus olhos não era nada mais do que medos, inseguranças e lágrimas. Me espantei com aquele depoimento: não havia nada de duro para se esbarrar quando tentava-se entrar em mim. Olhei pra você mais uma vez e me perguntei quantos medos havia nas palavras que você proferia. Suspirei e você parou de falar.
   - No que está pensando?

   - Em todas as coisas não ditas.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

VEM

O dia é cheio quando apareces
e pintas todas as paredes
com a cor de tuas mãos.
Tudo é tu
do começo ao fim.
Imagina se o tempo fosse retorno:
seria interminável
e eu seria infeliz.
O agora perderia o sentido,
assim como eu, quando cruzo contigo.
Parece que vamos tropeçar e virar adultos,
mas tudo cicatriza
até a maior dor do mundo:
joelho ralado.
Eu flertei o tempo todo, inclusive com o tempo
esperando que ele me desse mais uma chance,
e você esperou
que eu fosse absurda

de novo.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

FIM

Olhos inchados pela manhã
por coisas que de
metade não me lembro
e, a outra,
nem sentido faz.

Eu acho que vou vomitar o nada
(quem me dera isso fosse possível).
É só ânsiânsiânsia
que termina em mão trementes.

Foi um momento agressivo
não dele comigo,
mas da vida com a gente.

Parecia o fim do mundo.

Sempre me esqueço
que nada é o fim do mundo:
só se é uma vez.
A vida acaba
sendo bem mais simples
do que a gente pensa:
mas o futuro parece imensamente longo
agora
para não se complicar.

'Eu te amo" foi minha última frase
e não significou nada
além do que foi dito.
"Nós-
sa
o amor é a coisa
que mais pode".

quinta-feira, 3 de maio de 2018

NÓS:TALGIA

     Hoje me disseram que Tiago morreu. Recebi a notícia num telefonema de um antigo amigo que tínhamos em comum. Acho que seria um jeito que ele gostaria que eu recebesse essa notícia, pois ele sempre odiou mensagens de texto e redes sociais. Eu também. Tínhamos muito em comum e, ao desligar o telefone, me lembrei de uma tarde de décadas atrás, em que passamos em sua casa no Belenzinho, onde ele morava com mais quatro amigos. Me lembrei também que, antes de conhece-lo, eu achava que nunca iria me apaixonar. Um beijo e já me via livre desse achismo.
     Primeiro amor, amor jovem: se perde tudo, desde o hímen até os escrúpulos. Demorou muito, num amor como aquele, para nos falarmos "eu te amo" pela primeira vez. Eu mais do que ele, pelo meu constante medo de me entregar às coisas. No fim, foi de um jeito estranho que aconteceu: naquela tarde que me lembrei ao telefone, estava chovendo e sem luz, portanto não podíamos ver um filme (forma que havíamos encontrado de passar o tempo sem dizer bobagens). Nos olhávamos cara a cara, em silêncio, e o medo de destruí-lo com minhas catarses emocionais aumentava cada vez mais, ofuscando minha visão. Descobri que eram lágrimas e, chorando, lhe disse que não queria ir embora. Eu havia chegado fazia apenas uma hora e ele, com as sobrancelhas confusas, me respondeu que eu não tinha que fazer aquilo.
     Fui embora sem lágrimas, um ano depois daquela tarde. O primeiro amor tem esse nome pois depois dele vem outros. Eu sabia que um dia eu transbordaria e mataria Tiago afogado - isso aconteceu depois de minhas barragens quebrarem cinco vezes, inundando tudo. Não há jeito de salvar quem se ama de suas águas mais profundas.
     Nunca mais o vi.
     Mas me lembro daquela tarde. Foi mais do que um "eu te amo" molhado da chuva, que pingava da calha e dos cílios. Mais do que a falta de um filme. Foram horas passadas e não desperdiçadas, foram olhos que não me cansava - e quiça não me cansaria nunca - de olhar. Foram promessas não ditas por medo de não cumpri-las, foram carinhos guardados por medo que se acabassem como amores assim acabam: fogo e pólvora, que se beijam em uma explosão. Mas naquela tarde foi céu nublado, a calmaria antes da tempestade. E, mais tarde, foi um telefonema para minha mãe dizendo que eu não dormiria em casa naquela noite.
     Que me perdoem a todos, mas hoje eu gostaria de estar com Tiago.

     24/05/2016

quarta-feira, 25 de abril de 2018

NOITE FORA DE CASA

Uma pedra pousa no meu peito.
Repito:
sou a consequência de coisas não ditas.
A cada palavra lida 
eu sinto a urgência na ponta dos dedos:
toco nela
e em todo o resto.
“Ai!”, exclama, solta o texto,
como se os instantes fossem oxigênio
e ela queimasse nessa ciranda,
“você escreveu a gente junto”.
A melhor parte do dia
foi quando ele acabou:
me cubro na cama - o pé de fora,
relo em moléculas - posso fechar os olhos.
Lá está: você.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

TERCEIRA PESSOA

Me espantei
ao não saber agir com aquela menina
pois o único jeito que aprendi
a amar mulheres
foi o dos homens.

terça-feira, 3 de abril de 2018

CONJUNTURA

Pintei a casa toda
com o rosto de Marielle estampado por todo o chão
forrado de jornais.
As paredes terminaram em um tom vermelho
sangue.
Pingava suor por conta do bafo
do clima úmido e quente
da calma antes da tempestade.
“Quem disse que a soma não vai dar um desastre?”,
ele disse enquanto dirigia, cercado de neblina,
enquanto eu dormia
e sonhava com um mundo
em que eram possíveis utopias
e que a conjuntura da estrutura atual

não era pernas bambas em um abismo.

domingo, 18 de março de 2018

PALAVRA-CHAVE: PROBLEMA-CHICLETE

          Quando entrei na rua Teodoro Sampaio, todas as palavras entalaram na garganta. Percebi que havia passado o dia sem dizer uma palavra: acordara, estudara, fizera o almoço, lavara a louça, fora pra aula e então, no momento, voltava para casa. Ao abrir a porta, eu só teria uma gata (que ainda não havia aprendido a falar) e um papel que me ouviriam, mas nenhum dos dois estaria apto a me responder. No resto do caminho inteiro, não consegui encontrar sentido em falar com as paredes.
            Ser adulto é isso: ser atormentado pela capacidade de mudez. Ser atormentado por si mesmo, pela parte que saiu pelos poros e assombra sua própria casa. É ver em todo o reflexo uma parte desconhecida e não conseguir sustentar nem o próprio olhar. Na pia do banheiro, passei uma água no rosto e estalei o pescoço, me perguntando quando aquela crise ia passar. Foi quando entendi o conceito de eternidade.
            Fiz chá e sentei na cadeira em que meus pais leem o jornal toda a manhã. Olhando as paredes daquela sala (que mais se assemelha à um museu), percebi que às vezes o silêncio que os dois fazem quando dirigem, quando comem, quando esperam não representa o que se passa na cabeça deles. O óbvio chegou esbofeteando a minha cara e, de tão óbvio que era, me assustei: os adultos não sabem de tudo. Na verdade, não sabem de nada - e isso deixa um ponto sem nó confuso e solitário. Entendi o desespero de minha mãe quando eu chegava com um chiclete grudado no meu cabelo e chorava porque não queria cortá-lo, quando ela se deparava com a concretude das crises sem soluções.
         Fui lavar a xícara, constatando que eram apenas 21:34 e que a noite ainda se estenderia por mais 2 horas. Cantei, como havia pensado em fazer quando ficasse sozinha. O importante dos momentos de crise é que eles põem toda a teoria em prática. Eles nos obrigam a decidir quem seremos no futuro, começando pelo presente. Cada decisão que tomamos em relação a como enfrentar nossas perturbações se reflete no dia seguinte, quando se acorda e dá de cara com uma nova crise (ou a mesma), dividindo a cama com você. Olhei minha crise nos olhos e disse: "tenho medo". E o que  mais me assustava era perceber que, se os problemas aumentam em PA, o cansaço aumenta em PG, e num piscar de olhos os valores são tão exorbitantes que não dá mais para se ler nada (o analfabetismo emocional é a índice que mais aumenta ao redor do mundo). Ninguém sabe o que fazer com essas palavras que nunca se ouviu falar.
Mas fazem: meu pai, por exemplo, puxava minha orelha quando queria que eu escutasse alguma coisa e fica em silêncio enquanto come o cereal à noite; minha mãe, por exemplo, chega atrasada em todos os compromissos que marca depois do almoço e cortou o mal pela raiz, pois não havia tempo para esperar o cabelo crescer e arrancar o chiclete dele. O problema precisava parar de existir naquele exato minuto - o que não o impediu de crescer novamente. E, distraída, repito o erro e grudo o chiclete de novo. Mas hoje aprendi que dá pra tirá-lo passando óleo de cozinha. Isso é crescer: passar óleo e arrancar os problemas do couro cabeludo ao invés de deixar de ser cabeluda, como os próprios problemas.
Enchi a frigideira e fiz pastel de ventochicletecabeloeproblemas.

sábado, 10 de março de 2018

PEDRA SOBRE PEDRA

Eu assisto minhas rugas,
respirações e certezas
se tornarem mais profundas.
Eu assisto a cidade
de manhã e de tarde
com a cabeça nas nuvens
e, entre pipas e aviões,
tento entender os dois.
Eu dou risada
da nossa desgraça calculada
para conseguirmos sobreviver,
mas que deixa as marcas
da inutilidade do sofrimento.
Afinal de contas:
"é preciso imaginar Sísifo feliz".

Eu me olho de um jeito
que nunca ousarão olhar:
é amor que vejo,
não luxúria, medo ou desejo,
pois no meu sangue corre o vermelho
do começo de todas as revoluções.

quinta-feira, 1 de março de 2018

SONHO

Ana se banhou na água
Clara, que tentava entender a gente.
Elisa sentiu a brisa
do mar que não chegava.
Gil não sentiu
nada além de palavras.
Isabel olhou pro céu
e contou nos dedos dos pés
as nuvens.
Joel não banhou ninguém,
nem o desconhecido.

Ele representa o amor que virá:
que a gente sabe;

que a gente sente.